quinta-feira, 29 de julho de 2010

Bula

Ele amava Cristina. Cristina não o amava. Nem podia, já que ele nunca se abriu com ela. Durante 39 anos, guardou aquele segredo dentro dele. Obviamente, esse segredo se transformou em câncer. Dois anos antes de morrer, fez quimioterapia.

E foi ali, sem ligar muito para o prefixo, que pôde finalmente ter (direto na veia) o que sempre quis: vincristina.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Mar

Toda vez que iam ao litoral, ele pedia para ela usar fio dental. Ciúmes zero. Nada dava mais prazer a esse homem do que aquela cena. Não se importava com a sujeira de um dia inteiro na praia: depois que sua esposa usava o tal fio dental, ele implorava para lamber e mordiscar aquele fio inocente. Inclusive engolia as impurezas, sempre com o maior tesão. Toda noite era a mesma coisa. Lá estava ele no banheiro, como um cão aguardando o osso, à espera da mulher terminar de limpar suas gengivas.