sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Encontrado o braço de Dagoberto.

( leia o texto "Atlantic City" e depois entre em http://noticias.uol.com.br/ultnot/agencia/2007/12/14/ult4469u15567.jhtm )

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Under the milky way

Qual a melhor fase da vida, perguntou Maicon ao seu companheiro de trabalho. Eram os dois jardineiros. Ambos com primeiro grau incompleto, para não dizer primeira série. No critério Brasil, aquele que avalia o poder sócio-econômico da população, o resultado era sempre negativo mesmo somando a pontuação do duo.

Enquanto podava a grama, Uéscley respondeu: é qualquer fase anterior a essa que vivemos agora.

Depois de uma longa pausa, continuou: porque a memória só guarda as coisas boas, já percebeu? É um processo de auto-enganação. Veja só: até as coisas que te frustaram no passado, hoje são revestidas com uma espécie de ternura. Sabe quem inventou o termo Nostalgia? Foi um médico suíço em 1678. Era usada para traduzir a saudade da terra natal. Mas se a gente analisar a etimologia dessa palavra, veremos que "Nóstos", do grego, significa regresso, retorno. E "algia", como em fibromialgia, nevralgia, significa dor. Enfim, é a dor do regresso. Não a um espaço físico, mas sim a um espaço de tempo. Um retorno a algo que se perdeu, que nunca foi e que nunca será. Ou que foi mas acabou não sendo. Tipo uma festa de 15 anos que você deixou de ir. Ou uma em que acabou indo com seu melhor terno.

Maicon, sem saber que parafraseava Sartre, terminou a conversa:
- É verdade. Com 15 anos, é muito cedo ou muito tarde para se fazer qualquer coisa.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Tipos de depressão

Existem dois tipos de depressão que me intrigam.

A depressão pós-parto e a depressão pós-coito.

E por um simples motivo: são a mesma coisa.

Se eu tenho depressão, necessariamente ela veio depois do coito dos meus pais e do meu próprio parto.

Ou seja, toda depressão é pós-parto e pós-coito.
Então fica provado que existe um erro de terminologia grave na psiquiatria analítica.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Aniversário?

Hoje eu faço 23 anos.

É mentira.

Segundo dados recentes do IBGE,
estou fazendo -49.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Guia do Espermograma

Não há dúvidas que o espermograma é um dos poucos exames feitos com o maior prazer. Tem gente que gosta de eletroneuromiografia - com choques e microfones agulhados nos nervos periféricos. Tem gente que adora o gosto amargo e metálico do iodo aplicado como contraste na tomografia. Adoram mais ainda quando descobrem que o tumor é benigno. Para mim, o único câncer bom é aquele do zodíaco. Mas voltemos ao espermograma, esse sim uma unanimidade.

As pessoas realizam espermogramas quando querem ter filhos. Outras, quando há suspeita de varicocele, uma doença comum, complicada e gentil (a explicação envolve artérias e veias do rins que deixam de abastecer o escroto provocando lentamente um tipo de infertilidade). Mas ainda há outro tipo de pessoa, diga-se de passagem, muito respeitada por mim: a que realiza o espermograma por prazer. Pessoas fumam por prazer. Dão a bunda por prazer. Por que não fazer um exame por prazer?

Por isso, resolvi escrever esse pequeno guia, caso você esteja interessado em entrar para o clube. Lembrando que para a realização do exame é necessário uma abstinência sexual (seja ela propriamente dita ou apenas masturbatória) de 2 dias, não podendo exceder 5 dias.


Lavoisier, unidade Moema:

O Lavoisier é dos mesmos donos do Delboni Auriemo. Pode se verificar isso pelo padrão gráfico dos folhetos e pelo prefixo do telefone (pelo menos há 3 anos era o mesmo do Delboni.) O Lavoisier é o laboratório da classe média-baixa e da classe média-média (considerando o fato de ainda existir classe média após dois governos FHC). Se sua carteirinha do plano não tem listras douradas, nem prateadas, muito menos bronzeadas, talvez você acabe fazendo um eletroencefalograma por aqui algum dia.

Ambiente de coleta do sêmen: A ambiente não é dos melhores. O dormitório é amplo, quase uma quitinete. Uma maca situa-se no meio do quarto (fantasia com enfermeiras, hein?). A verdade é que ninguém coleta esperma deitado, porque ocorre vazamento. O melhor jeito de encher o pote é em pé ou sentado com as pernas abertas com o pênis apontado para um dos cadarços.

Material pornográfico: o laboratório disponibiliza apenas material impresso para excitar os clientes. As revistas são boas, de pornografia pesada, com exceção de uma ou outra playboy da Malu Bailo. As páginas de algumas revistas estão coladas, provando que o exame de alguém foi comprometido.

Avaliação geral: Regular


Delboni Auriemo, unidade Av. Brasil:

O Delboni é o laboratório da classe média-alta. Quase todos os planos com um bom custo-benefício o cobrem. Recomendo a eletroneuromiografia e a audiometria na unidade Sumaré, ambos realizados primorosamente. O serviço de café não chega aos pés do Fleury, mas o chocolate quente e o cappuccino com canela extra são altamente recomendáveis.

Ambiente de coleta do sêmen: Para chegar até a minúscula salinha de coleta, é preciso passar pela área de colonoscopia. Ou seja, sempre me pergunto se aquelas gordas na faixa dos 50 anos, preocupadas com o colo do útero, sabem o que eu estou fazendo na sala ao lado. Chega a ser perturbador. Para alguns, é até excitante. O dormitório possui uma poltrona confortável e uma pia.

Material pornográfico: O laboratório possui algumas revistinhas de sacanagem. Nem vale a pena olhar. Quando se tem uma TV 14 polegadas com vídeo, como é o caso, é só acertar o ponto da fita e um abraço. A TV fica no alto, ou seja, é melhor coletar o sêmen em pé, ao mesmo tempo em que você ajusta o ponto do vídeo. Os vídeos de lá costumam ser bons. Cheguei a ter sorte uma vez e assistir um com podolatria.

Avaliação geral:
Bom


Fleury, unidade Paraíso:

O Fleury é o supra-sumo dos laboratórios de análises clínicas. Começa pelo serviço de café, que oferece suco de laranja com ou sem açúcar e sanduíches de tofu ou peito de peru. Os resultados podem ser entregues em casa por uma pequena taxa (nos outros, a taxa é alta). Você é avisado pelo celular quando tudo fica pronto. Na unidade do Jardim Europa, você pode pegar seus exames através do Drive-Thru. Chega a ser emocionante fazer até uma prova rápida para identificação de Estreptococo Beta Hemolítico. O que dizer então de um espermograma?

Ambiente de coleta do sêmen: Aqui não se trata de um simples quarto, mas sim de uma suíte. A iluminação é gentil, o ambiente é aconchegante e não existe cheiro de cândida. A poltrona é confortável, mas fica um pouco longe da TV, também de 14 polegadas. Com exceção disso, todo o resto é feito sob medida para o seu prazer. Dos três laboratórios, é o único que oferece um combo triplo: algodão com anti-séptico, outro com água esterilizada e uma gaze para secar a glande.

Material pornográfico:
Quando a enfermeira lhe dá o potinho a ser enchido, você senta na poltrona e olha para o lado. Chega a se assustar ao ver só duas revistas. Pior, duas playboys, uma daquela surfista horrível que parece o Jeff Daniels e outra do naipe daquela da Virna. Ou Ida do vôlei, sei lá. Mas aí que é você se surpreende: arrasta a poltrona, aproximando-a da TV e, ao ligá-la, descobre que tem em mãos o canal da Playboy e da Venus (o melhor) via sinal digital. Ainda por cima tem sempre uma fita boa ali no vídeo. O prazer é sempre garantido.

Avaliação geral:
Ótimo


Conclusão:
Espero que esse guia ajude não só a você, interessado em fazer o exame, mas também aos donos de laboratórios e cafetões. Se vocês ainda não perceberam, aí vai. Existe um grande nicho a ser explorado no ramo dos espermogramas: a coleta via relaxamento manual feminino, após uma deliciosa massagem tailandesa. Quem paga R$ 165,98 (preço particular no Fleury) por uma simples bronha, com certeza pagaria uma fortuna por um pouquinho mais de AMOR. E isso ainda evitaria, segundo relatos a que tive acesso, um fato bastante contrangedor nesse tipo de exame: o indivíduo broxar e não conseguir saber a morfologia estrita de Kruger dos seus milhões de girinos.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Atlantic City

Dagoberto tinha ejaculação precoce. Era difícil para ele se segurar. Até a pré-adolescência mijou na cama, mas isso não vem ao caso. O maior problema para Dago, na verdade, era outro. Ele não entendia o porquê das mulheres acharem ruim o fato de uma pessoa ejacular rapidamente. Não seria isso uma homenagem àqueles belos corpos femininos? Oras, não se é precoce com uma velhinha de 80 anos, pensava ele. (Segundo Schopenhauer, existe juventude sem beleza, mas não beleza sem juventude, leu ele uma vez). Dagoberto tinha raiva. Muita raiva. Sua ejaculação precoce não era entendida do jeito que deveria ser. Ele amava as mulheres. Aquilo era a manifestação física de todo o seu desejo e paixão por elas. Pobres mulheres leitoras de Nova, repetia ele.

Por tudo isso, Beto resolveu se matar. Decidiu se jogar no Rio Pinheiros.

Tomou um último chopp no Filial, ali na Vila Madalena. E seguiu em linha quase reta até a marginal. Próximo de chegar lá, já na rua Capri, avistou uma bela ninfeta de 12 anos. Com certeza já havia menstruado, por isso não havia mal nenhum em desejá-la segundo as leis da natureza. Que belo par de panturrilhas. Eram tão lindas que ele começou a tremer. Era, de fato, a sua última ejaculação precoce. Uma das mais intensas. Não só ele, mas o chão também começou a tremer. O mundo começou a tremer. E Dagoberto foi engolido pela cratera da linha 4 do metrô.

terça-feira, 27 de março de 2007

Ladrão de Casaca Adidas

Na primeira vez que beijou uma garota, Adalberto achou meio salgado. Era um momento doce, dizia sempre sua irmã mais velha, fã de Cecília Meireles. Talvez a menina tivesse comido um tambaqui em crosta de sal grosso com risoto de bacalhau marinado. Ou simplesmente um churrasquinho grego, primo pobre da moussaka, que vinha com três sucos grátis (obviamente para equilibrar o nível de sódio no organismo.)

Na primeira vez que transou com uma garota, Adal acho amargo.

Na primeira vez que fez Golden Shower, a pedido de sua namorada católica e virgem apenas do orifício vaginal, lembrou de seu primeiro beijo. Enquanto engolia as últimas gotas de uréia, Beto pensou: um beijo não é nada salgado perto disso.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Em um ano com 26 luas.

Florisberto era funcionário público. E, como todo aspone, era uma pessoa estranha. Obcecado por juntar dinheiro, trocava seus almoços por empadas com azeitonas com caroços. Todo dia.

Quando criança, os amigos impiedosos do colégio, hoje maridos entediados de esposas semi-feias, costumavam chamá-lo de flor. Aquilo o incomodava. Um dia Floris foi até o bosque próximo à sua casa. Colheu uma bromélia e a pôs no cabelo. Veadinho, resmungou o jardineiro municipal. O garoto não ligou. Talvez nem tenha ouvido. O que importa é que ele passou, com o adorno na cabeça, a tarde inteira admirando o caule de uma palmeira. Que caule lindo. Que caule lindo. Que caule lindo. Que caule lindo. Que caule lindo. Que caule lindo. Ó, o crepúsculo.

Florisberto juntou, em 30 anos, mais de 300 mil reais. Gastou 12 mil com a operação de mudança de sexo. Arrependeu-se. Gastou mais 20 mil, agora dólares, para enxertar gordura do bumbum na sua mínuscula glande, que tinha se transformado num pseudo-clitóris. Porém, maratonista e obviamente com um índice mínimo de gordura corporal, não lhe sobrou muito para o recheio de seu pênis. Gastou os outros 228 mil reais em vodca de média qualidade.

segunda-feira, 19 de março de 2007

Perfume de mulher.

Alberto era floricultor. Sabia que, além do perfume, existiam mais diferenças entre um lírio normal e um lírio perfumado que a nossa vã filosofia podia suportar. Trabalhava na banca número 8, ali na Dr. Arnaldo, junto ao cemitério do Araçá. Vinda de Holambra, a flora ia direto para os túmulos ou mulheres semi-úmidas (claro que elas não imaginavam que as flores vinham de uma loja em frente ao cemitério - sabe como são as mulheres. Além do mais, todo relacionamento está fadado à morte mesmo, pensava Alberto. Para ele, dava no mesmo.)

Às nove da noite, deu seu horário. Ele sempre levava uma rosa colombiana vermelha para sua noiva. Tudo bem, às vezes era branca. Com a flor em uma mão e o maço de cigarro na outra, caminhou no sentido da Heitor Penteado. Precisava pegar o metrô, fazer duas baldeações, pegar um ônibus, uma van e andar 3km a pé. À caminho da estação Sumaré, mais precisamente ao atravessar a Cardoso de Almeida, Alberto acendeu um cigarro. Lembrou como conquistara sua noiva. Eu só fumo porque não tenho nada melhor para fazer com a boca, disse para a futura mulher num forró próximo ao largo da batata. Funcionou. Ela arrancou o cigarro de seus lábios e lhe tascou um beijão. Com gosto de hot-dog prensado da cardeal arcoverde, mas um beijão.

Pensativo, Alberto prestava atenção na rosa e no cigarro enquanto caminhava na ponte sobre a avenida Sumaré. Pessoas que não tem nada para fazer costumam praticar rapel e bungee jump por ali. Ele nunca notou. Quando olhou para o lado, viu o que achou ser uma pessoa se jogando. Correu para segurá-la, evitando assim um suposto suicídio. Não funcionou. Os dois caíram. Obviamente, o elástico não estava preso em Alberto.

sábado, 17 de março de 2007

40 anos essa noite.

Roberto era daqueles que não gostava de comemorar seu aniversário. Tinha medo que ninguém fosse. Mas dessa vez era diferente: ia fazer 40 anos. Uma data redonda merece comemoração - diziam seus amigos de firma.

Aos poucos, amoleceu. Resolveu comprar uns sanduíches de metro e chamou todos: do almoxerifado ao CPD. Reservou o salão de festas de seu condomínio pela módica quantia de hum salário mínimo. Contratou um DJ especialista em medleys. Em relação às bebidas, preparou muito ponche. Roberto sabia que tudo isso era brega demais, mas simplesmente se deixou levar pela data redonda. Datas redondadas só acontecem 7 vezes numa vida, pensou ele, se você levar em conta os dados do IBGE.

A festa já acontecia há duas horas. Roberto tinha esquecido o CD da Corona em seu apartamento. Pegou o elevador, abriu a porta e olhou fixamente para a varanda de sua sala. Nesse momento, todos que liam esse texto pensaram que ele fosse se jogar de lá. Não. Ele foi até o quarto e, com o CD da Corona em mãos, pulou da janela.

Caiu em cima de um colega do departamento pessoal, que amorteceu a queda. Roberto e o moço do DP foram encaminhados para o Pérola Byington. O zelador só iria encontrar o CD dois dias depois. E Corona iria virar uma de suas cantoras preferidas.

Roberto quebrou as duas pernas em 15 lugares. Voltou ao trabalho na semana passada. O funcionário do departamento pessoal deixa mulher, uma filha de 12 anos e um menino de 3 meses.