segunda-feira, 19 de março de 2007

Perfume de mulher.

Alberto era floricultor. Sabia que, além do perfume, existiam mais diferenças entre um lírio normal e um lírio perfumado que a nossa vã filosofia podia suportar. Trabalhava na banca número 8, ali na Dr. Arnaldo, junto ao cemitério do Araçá. Vinda de Holambra, a flora ia direto para os túmulos ou mulheres semi-úmidas (claro que elas não imaginavam que as flores vinham de uma loja em frente ao cemitério - sabe como são as mulheres. Além do mais, todo relacionamento está fadado à morte mesmo, pensava Alberto. Para ele, dava no mesmo.)

Às nove da noite, deu seu horário. Ele sempre levava uma rosa colombiana vermelha para sua noiva. Tudo bem, às vezes era branca. Com a flor em uma mão e o maço de cigarro na outra, caminhou no sentido da Heitor Penteado. Precisava pegar o metrô, fazer duas baldeações, pegar um ônibus, uma van e andar 3km a pé. À caminho da estação Sumaré, mais precisamente ao atravessar a Cardoso de Almeida, Alberto acendeu um cigarro. Lembrou como conquistara sua noiva. Eu só fumo porque não tenho nada melhor para fazer com a boca, disse para a futura mulher num forró próximo ao largo da batata. Funcionou. Ela arrancou o cigarro de seus lábios e lhe tascou um beijão. Com gosto de hot-dog prensado da cardeal arcoverde, mas um beijão.

Pensativo, Alberto prestava atenção na rosa e no cigarro enquanto caminhava na ponte sobre a avenida Sumaré. Pessoas que não tem nada para fazer costumam praticar rapel e bungee jump por ali. Ele nunca notou. Quando olhou para o lado, viu o que achou ser uma pessoa se jogando. Correu para segurá-la, evitando assim um suposto suicídio. Não funcionou. Os dois caíram. Obviamente, o elástico não estava preso em Alberto.

7 comentários:

Anônimo disse...

Gostei muito. Mas gostaria de lançar um desafio pra vc. Que tal o próximo não ter morte no final?

Anônimo disse...

Sem comentários...

Anônimo disse...

Fer, tenho que discordar, gostei da linha.
Parabéns, Wolf, adorei.

O horizonte me distrai... disse...

Morreu sem saber o sentido real do baço. Triste!

Anônimo disse...

Eu tava achando tão bom... aí veio o final muito secamente, poderia ter explorado mais.

Wolf disse...

Os finais são sempre secos. Quando as coisas estão úmidas, é só o começo. Bem, uma mulher pode explicar melhor que eu. Mas valeu pela crítica, sério. :)

Pequena Russa disse...

Gostei, trágico, denso e profundo...