quinta-feira, 31 de julho de 2008

Breve diálogo #451

- Você já foi para as ilhas Cook?
- Não, ainda não encontrei a pessoa certa.

domingo, 27 de julho de 2008

Faça um seguro de automóvel. Um dia você pode não precisar.

Fabrício tinha um belo carro. Air-bag duplo, bancos em couro, rodas 20 polegadas. Desses que fazem as mulheres ficarem úmidas quando o vêem. E porque as mulheres gostam de carros? Porque carros são sinônimos de dinheiro. E dinheiro é sinônimo de segurança. E toda mulher procura segurança, óbvio. Desde quando existiam dinossauros.

Mas Fabrício queria vender seu carro justamente por causa disso. Queria uma mulher que se sentisse segura ao lado dele não por causa do carro. Sim por causa de seu abraço forte. Era uma segurança momentânea, é claro, mas pelo menos não envolvia dinheiro. Talvez a única que não envolvesse.

Então Fabrício foi em exatamente 27 lojas. Todas ofereceram um valor baixíssimo pelo carro. Uma hora falavam que era a cor, dourado. Outra hora falavam que era o câmbio, que não era automático. Mas se fosse, diriam que preferiam o manual. Nessa fase da vida, ele não ligava muito para dinheiro, mas também não era bobo. Queria o valor justo. Em vão. Malditos vendedores de lojas de carros usados.

O garoto de 20 anos teve uma idéia: dar PT (perda total) em seu carro. Assim receberia o valor de tabela do carro, algo justo na cabeça dele. Aí ficou na dúvida. Não sabia se batia de frente para pegar o motor, o que certamente levaria à PT, ou se batia de lado, para pegar a coluna lateral, algo também bastante convincente em termos de perda total.

Escolheu uma sexta-feira, para parecer que tinha bebido ou que estava cansado demais depois de uma noite inteira de olhares mal sucedidos. Se fossem bem sucedidos, tudo seria um grande mal entendido, como sempre. É a vida.

Resolveu bater de frente mesmo. Não é assim que seus amigos diziam? "Encare a vida de frente." Como se desse para encarar algo de costas, não é? Então lá na Av. Rebouças, enfiou seu carro no 5 poste que viu. Nunca achou que a coragem pudesse ser quantificada em 4 postes, mas enfim.

Ao bater, seu Air-bag não abriu. Apenas o do passageiro.

Onde deveria estar sua ex-namorada, que, horas depois, choraria muito no seu velório, culpando-se ao achar que aquele pobre homem jogou seu carro num poste por causa dela, não por causa das práticas hediondas do mercado de veículos usados.

Pobre moça.

2046

Irina estava andando pela avenida paulista no sentido Consolação. John, no sentido Paraíso.

Próximo à livraria Martins Fontes, os dois se cruzaram. Foi um cruzamento diferente desses que acontecem todo dia. Sabem por quê? Porque eles se olharam. E, hoje em dia, ninguém mais se olha na rua.

Mas, então, eles se olharam. E foram um passando do ponto do outro, sem virar os rostos.

Um segundo e meio depois, Irina virou sua cabeça para trás, para ver se John a olhava. Não olhava.

Um segundo após Irina voltar sua cabeça para a posição original, ou seja, para a frente, John se virou para ver se Irina o olhava. Não olhava.

E foi isso. Um quase isso. Como quase sempre.


Afinal, como diria o chinês do título desse texto, "o amor é uma questão de timing".

domingo, 13 de julho de 2008

Fim

A coca light. O filme. A noite. O sono. O sonho. O remédio para o sono. O esmalte. O amor. A viagem. O álbum do Sígur Rós. As amizades. O livro. O tesão. A vontade de comprar. A vontade de vender. O carré de cordeiro com cuscuz marroquino. O risoto daquilo, risoto disso, risoto de sei lá o quê. A família. O romance. O mistério. O suspense. O drama. O terror. O abril. O dezembro. O outono. O cheiro daquela lembrança. A doença. O limite do cartão de crédito. A crença. A dúvida. O desejo. A falta de desejo. O xarope para tosse. A tosse. A vida.


...as coisas, de uma hora para outra, simplesmente acabam.

Sinceridade

Entre as milhares de coisas que me chateiam na vida, uma das piores é, sem dúvida, a impossibilidade de ser sincero.

Por exemplo, você encontra uma garota interessante numa festa. Na sua cabeça, sabe-se lá por qual motivo, você realmente acha que a conhece de algum lugar. Ok, pode ser dos seus sonhos, pode ser de outra festa em que você estava totalmente bêbado, não importa. O que importa é que você realmente acha que a conhece de algum lugar (faço questão de repetir, já que isso é totalmente possível devido às mesmas baladas, mesmos círculos de amizade, etc.). Só que experimente chegar nela e dizer: "Ei, eu não te conheço de algum lugar?". Já era, amigo.

Outro exemplo: você não aguenta mais machucar sua namorada. Afinal, você é uma pessoa horrível e não quer ser mais horrível ainda com as pessoas que você realmente gosta. Então você decide terminar o namoro. Só que o problema é você, isso é fato. Não é ela. Agora experimente chegar na sua namorada e dizer: "Sabe o que é? O problema não é você, sou eu. Vamos terminar.". Por mais que seja verdade, você acaba de se ferrar. Mais uma vez.

É triste, não é?