Fabrício tinha um belo carro. Air-bag duplo, bancos em couro, rodas 20 polegadas. Desses que fazem as mulheres ficarem úmidas quando o vêem. E porque as mulheres gostam de carros? Porque carros são sinônimos de dinheiro. E dinheiro é sinônimo de segurança. E toda mulher procura segurança, óbvio. Desde quando existiam dinossauros.
Mas Fabrício queria vender seu carro justamente por causa disso. Queria uma mulher que se sentisse segura ao lado dele não por causa do carro. Sim por causa de seu abraço forte. Era uma segurança momentânea, é claro, mas pelo menos não envolvia dinheiro. Talvez a única que não envolvesse.
Então Fabrício foi em exatamente 27 lojas. Todas ofereceram um valor baixíssimo pelo carro. Uma hora falavam que era a cor, dourado. Outra hora falavam que era o câmbio, que não era automático. Mas se fosse, diriam que preferiam o manual. Nessa fase da vida, ele não ligava muito para dinheiro, mas também não era bobo. Queria o valor justo. Em vão. Malditos vendedores de lojas de carros usados.
O garoto de 20 anos teve uma idéia: dar PT (perda total) em seu carro. Assim receberia o valor de tabela do carro, algo justo na cabeça dele. Aí ficou na dúvida. Não sabia se batia de frente para pegar o motor, o que certamente levaria à PT, ou se batia de lado, para pegar a coluna lateral, algo também bastante convincente em termos de perda total.
Escolheu uma sexta-feira, para parecer que tinha bebido ou que estava cansado demais depois de uma noite inteira de olhares mal sucedidos. Se fossem bem sucedidos, tudo seria um grande mal entendido, como sempre. É a vida.
Resolveu bater de frente mesmo. Não é assim que seus amigos diziam? "Encare a vida de frente." Como se desse para encarar algo de costas, não é? Então lá na Av. Rebouças, enfiou seu carro no 5 poste que viu. Nunca achou que a coragem pudesse ser quantificada em 4 postes, mas enfim.
Ao bater, seu Air-bag não abriu. Apenas o do passageiro.
Onde deveria estar sua ex-namorada, que, horas depois, choraria muito no seu velório, culpando-se ao achar que aquele pobre homem jogou seu carro num poste por causa dela, não por causa das práticas hediondas do mercado de veículos usados.
Pobre moça.
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